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Tentativa
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Inocência

Relendo um antigo caderno de poesias (da época em que eu escrevia), encontrei muitas pérolas.

O interessante é que eu era bem novinha quando escrevia tanta coisa. Encontrei muita coisa que ficava guardada, nas épocas remotas. Como os textos trazem à tona esses sentimentos...

Enfim... Achei muita coisa com muita carga - e pesada. No entanto, o que publico aqui é uma (re)descoberta de um texto muito leve e inocente. Trata-se de uma produção de, precisamente, 22/12/00. Foi divertido pra mim reencontrá-lo; espero que também o seja para quem ler.



Ser poeta

Há certas coisas que se ganha
Quando se é poeta
O mundo é quadrado, a rainha é fanha
A filha da mãe é dela neta

O coração sofre mais, mais ama
A razão perde sempre
O mundo não entende; clama
O cérebro passa a agir abaixo do ventre

O céu fica amarelo
E não é por causa do sol
É capricho do poeta
Que ignora tudo
Porque pode
Porque é poeta
Não precisa nem rimar se não quiser
Tudo o que ele fala
Ele pode falar
Porque, dele, a poesia flui


By my ancient me

December 2, 2006 | 8:25 PM Comments  0 comments

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Soco no estômago

Hoje não vou falar de mim. Vou falar da letra de um rap que recebi de um amigo que trabalha com menores infratores, escrita por um dos jovens que, atualmente, está preso.

Vou expor, com a devida autorização do autor e os devidos créditos, o outro lado do que sai nos jornais diariamente. O lado de quem está lá, na periferia, sem oportunidades, sem ídolos honestos, sem a atenção de ninguém.

O rapaz, autor desta letra, tem muito talento. Espero, com esta singela publicação de um de seus produtos, conseguir tocar o coração de alguém como o meu foi tocado. Espero que as consciências sejam reacordadas e que não parem mais de reclamar, para não deixarem que caiamos na inércia da omissão.

Espero, sinceramente, que ele, assim como os seus amigos e inimigos que vivem abandonados pelo governo e, principalmente por nós, sociedade, tenha um futuro que surpreenda positivamente as expectativas e, acima de tudo, as probabilidades.


Música: Seja bem vindo ao meu mundo
Autor: Tiago Bruno


Seja bem vindo ao meu mundo
Um lugar cabuloso e obscuro
Aqui é assim, acontece de tudo
Favela e cadeia tem algo em comum
As duas estão no coração de cada um
Eu olho o meu povo e só vejo tristeza
Criança brincando no meio dessa pobreza
Violência aqui é algo natural
Bem ali fui criado na favela estrutural
Direto eu me recordo dos tempos do lixão
Ali eu conheci e fiz vários irmãos
O tempo foi passando e a gente foi crescendo
No mundo do crime eu vi muitos se perdendo
Sem muitas escolhas e nenhuma opção
Eu também fui crescendo e me criando no mundão
Desde moleque eu sabia qual era a lei da rua
Não dá mole pra ninguém, ter um ferro na cintura,
Falava do meu pai com muito orgulho
Apesar dele estar do outro lado do muro
Já ouvi um ditado, eu acho que é certo
"A gente se espelha em quem está mais perto"
Sem ele do meu lado, para me apoiar
Precisava me manter, fui obrigado a roubar
Na favela é assim, você tem duas escolhas a fazer
A primeira é sonhar e a outra sobreviver
Você decide a escolha que é certo para você
Tive como escolha o caminho mais fácil
Ainda me lembro do meu primeiro assalto
Dinheiro no bolso, vamos as compras
Olhei para mim mesmo e o back estava na ponta
Agora eu era mais um viciado, a porra da maconha me deixava alucinado
Agora eu tava do jeito que eu queria, dinheiro pra caralho e maconha todo dia
Mas o tempo passa e eu já cansado de roubar
Parei de meter fita e comecei a traficar
Já era conhecido em toda cidade, por ter muita droga e de boa qualidade
"Fala o que tu qué? Que eu arrumo pra você!"
Cê tu dá um teco vai cheirar até morrer
A propaganda aqui é a alma do negócio
Nessa correria já tive vários sócios
A boca era o meu esconderijo
A maioria dos meus sócios viraram inimigos
Tudo por causa da porra do dinheiro
Em pouco tempo o meu sonho se tornou pesadelo
Os moleques doidos em que eu confiava
Querendo me catar, moscando na quebrada


E eu que pensava que o crime era só alegria REFRÃO
Dinheiro pra caralho e maconha todo dia


Como era de se esperar, a casa caiu
Eu fui descoberto e a boca explodiu
A polícia é cabulosa, são nossos inimigos
Foram ensinando a não ter pena de bandido
Levarão a minha droga e roubaram meu dinheiro
Mas antes disso tudo, rolou um atropelo
Coronhada na cabeça, chute nas costelas
Rodou mais um patrão que comandava a favela
Esse era o comentário que rolava no outro dia
Aqui na detenção é só tristeza e agonia,
Eu começo a lembrar de tudo o que eu fiz
Sinceramente irmão, eu não me sinto tão feliz
Sem um back para fumar, e dinheiro no bolso
Agora estou passando um verdadeiro sufoco
Eu estou aqui, no meio de cães
Hoje eu só tenho o apoio da minha mãe
Que nunca me abandona nas horas difíceis
Está me ajudando a sair do precipício
Ela me dá forças para me levantar
E quando eu sair daqui, parar de traficar
Hoje eu senti o cheiro do perigo
Bati de frente no pátio com um inimigo
Graças a Deus que não rolou nada
Se tudo der certo, volto vivo pra quebrada
Agradeço a Deus por me manter vivo
Muito obrigado por me livrar desse perigo
Eu me lembro da rua a todo momento
Trancado numa cela, vivendo no esquecimento
Toda noite aqui, a cadeia pesa
Me recordo dos momentos de alegria na favela
Sinto um aperto dentro do meu coração
Por saber que tudo o que eu vivi não passava de ilusão
Carro, dinheiro, as putas da quebrada
Só agora eu vejo que tudo deu em nada
Me sinto muito triste, meio magoado
Mas agora tudo isso faz parte do passado
A minha coroa, pega a foto e começa a chorar
Seu filho saiu fora e não sabe se vai voltar
Perdoa mãe, por te fazer sofrer
Mas eu tive que escolher
Sonhar ou sobreviver


E eu que pensava que o crime era só alegria REFRÃO
Dinheiro pra caralho e maconha todo dia


November 10, 2006 | 8:52 AM Comments  0 comments

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Cambalhotas

Eu gosto da palavra cambalhota. Ela é divertida, assim como o seu sentido.

Quer dizer, nem sempre o sentido de cambalhota é divertido. Agora mesmo, minha vida dá muitas cambalhotas, diariamente, e isso tem me causado um sentido de medo. Trata-se, no entanto, de um medo saudável. É um medo novo para mim.

Ao mesmo tempo em que ele desperta uma certa sensação de travar tudo, de fazer com que eu não queira me mexer, ele me dá um gás enorme para que eu me mexa sim, e com muita intensidade.

É como alguém que tem de lutar contra um exército inteiro e sabe que pode se dar muito mal nessa brincadeira, mas, em vez de desisir, de se esconder, esse alguém sai correndo, gritando, com sua espada na mão, levantada em direção ao céu. A sensação é de muita coragem.

Não sei exatamente como isso acontece. Do meu medo inicial tem nascido uma coragem que poucas vezes tive na vida. Talvez seja um dos efeitos das cambalhotas. E faz sentido. Os sentimentos estão lá, mas elas os chacoalham muito e eles se confundem neles mesmos e em suas interações com eles próprios.

Muitas mudanças. A maior delas, no entanto, está em mim. E estou feliz com isso.

E é muito interessante porque, assim, eu volto ao sentido divertido da cambalhota...



October 31, 2006 | 8:17 AM Comments  1 comments

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Indecisão
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E já cantavam os Paralamas:

A esperança não vem do mar
Nem das antenas de tevê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê




September 25, 2006 | 8:48 AM Comments  4 comments

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Reencontro

Tanto tempo afastada da poesia
Da palavra, antiga amiga
Hoje, uma desconhecida
Que não me entende
Não me ajuda
E me atrapalha

O tempo foi grande
A dor maior
Mas venceu a saudade
Ou a necessidade
Fato é que voltei
E ela me aceitou de volta

Espero que retomemos nossa intimidade
Perdida com a separação
O laço forte renasceu
Mas a vergonha não morreu
E precisamos agora
Tomar coragem para a publicação

Nossa relação é muito íntima
Não costumamos expor nada
Mas nessa retomada
Tanto tempo depois
E tão esperada
Queremos aparecer
E dar a cara a tapa

Que assim seja, pois



September 15, 2006 | 8:46 AM Comments  1 comments

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Viajando bonito

"Canja de galinha e dinheiro no bolso não fazem mal a ninguém".

Tenho minhas sérias dúvidas quanto a isso.

Deixando de lado a análise acerca da salubridade da canja de galinha - afinal, ninguém merece ler isto -, fixemo-nos na parte de ter dinheiro no bolso. Eu realmente não me convenço de que não se trata um dos objetivos que mais fazem mal no mundo.

Homicídios, traições, miséria, guerras inteiras, fome, corrupções, e, diminundo a escala (para o âmbito da minha pessoa), descaso, falta de atenção, sofrimento, carência... Quanta coisa ruim nasce dessa coisa que, de meio, virou fim.

O que eu realmente acho que não faz mal a ninguém é

bom senso
saber ouvir
abraçar
ajudar
saber falar
acreditar
dar atenção
compreender
equilíbrio
imaginar

Eu tenho sentido falta de tudo isso, desde a pequenininha escala até a maior possível nesta análise: o mundo. Por causa disso, as pessoas estão cada vez mais doentes, por dentro e/ou por fora. Por causa disso, a minha felicidade está doente hoje.

Não vou tomar canja de galinha. Se ela vai fazer mal eu não sei; só sei que não vai ser ela que vai ajudar a resolver. Nem a minha doença, nem as do mundo.
Infelizmente.

September 1, 2006 | 3:43 PM Comments  0 comments

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Glub, glub, glub...
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Passatempo
Porque o tempo não passa

Pesadelo
Porque levedelo seria incoerente

Desaconselho
Porque é propriedade de Saconselho

Zeca Baleiro
Para evitar analogias com os cavalos

Estômago
Porque era melhor que sômago - e não era atual

Seminua
Porque semipelada é muito sem classe

Nhoque
Porque acharam que uma onomatopéia resolveria o problema do nome

Camaleão
Para não apelarem para armáriomacaco

Comporta
Porque contorta daria fome

Baleia
Porque o gaúcho queria instruir

Sonho
Porque também tem o suspiro - e eles andam sempre juntos

PaLavras
Pa não ir paRecife

Po,lítica
Para reclamar sem falar um palavrão

Computador
Porque não deu pra evitar o palavrão mesmo

Trava-língua
Porque a língua está solta demais



August 18, 2006 | 3:30 PM Comments  2 comments

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Freud explica

Não sei se é dele mesmo a fala abaixo, a fonte foi a internet e eu sempre desconfio dela. Em todo caso, gostaria de compartilhá-la. Gostei muito.

"Gerações novas, que forem educadas com bondade, ensinadas a ter uma opinião elevada da razão, e que experimentarem os benefícios da civilização numa idade precoce, terão atitude diferente para com ela.

Senti-la-ão como posse sua e estarão prontas, em seu benefício, a efetuar os sacrifícios referentes ao trabalho e à satisfação instintual que forem necessários para sua preservação.

Estarão aptas a fazê-lo sem coerção e pouco diferirão de seus líderes.

Se até agora nenhuma cultura produziu massas humanas de tal qualidade, isso se deve ao fato de nenhuma cultura haver ainda imaginado regulamentos que assim influenciem os homens, particularmente a partir da infância."

Sigmund Freud - 1927


August 14, 2006 | 3:12 PM Comments  0 comments

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Your Mirror

Adoro Simply Red. Concordo que eles têm algumas coisas bem breguinhas, mas, se você souber ouvir, acha muita coisa boa.
Abaixo, um exemplo disso que estou falando. Sempre gostei desta música, mas, quando a ouvi, hoje, pareceu mais linda que nunca.
It fits perfectly with myself today.
(A música complementa demais a letra, especialmente na versão feita no cd 'Simplified'. Como não consigo colocar o link aqui, sugiro que ouçam. É fácil achar na Internet.)


Your Mirror

I've got to stand up for myself
This society don't care about nobody else
I've got to be strong
Even if I know that this feeling is wrong
I've got to not care
Even if I know that this world is meant to share

Wait a minute. This is wrong
Even the birds still sing their faithful song
And your beauty lies within you
Look in the mirror baby
Look in the mirror baby

What you gonna do when your friends have gone away
And deserted you
You'll have to be strong

24 hours can seem so long
You're taught to not care
And then not realise this world is meant to share

Wait a minute. It's wrong
Even the birds still sing their faithful song
And your beauty lies within you
Look in the mirror baby
Look in the mirror baby

We've got to stand up for ourselves
Even if a leader so cold wants to glory himself
We've got to be strong
Even if our reasons seem wrong
We've got to not care
Even if the world that we know may not even be here

Hold It! It's wrong
Even the birds still sing their faithful song
And your beauty lies within you
Look in the mirror baby
Look in the mirror baby



July 13, 2006 | 4:30 PM Comments  0 comments

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Só ele mesmo

Que eu não perca o romantismo, mesmo sabendo que as rosas não falam.

Que eu não perca o otimismo, mesmo sabendo que o futuro que nos espera pode não ser tão alegre.

Que eu não perca a vontade de viver, mesmo sabendo que a vida é, em muitos momentos, dolorosa.

Que eu não perca a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas.

Que eu não perca a vontade de ajudar as pessoas, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, reconhecer e retribuir esta ajuda.

Que eu não perca o equilíbrio, mesmo sabendo que inúmeras forças querem que eu caia.

Que eu não perca a vontade de amar, mesmo sabendo que as pessoas que eu mais amo podem não sentir o mesmo por mim.

Que eu não perca a luz e o brilho no olhar, mesmo sabendo que muitas coisas que verei no mundo escurecerão meus olhos.

Que eu não perca a garra, mesmo sabendo que a derrota, a falha e a perda são três adversários extremamente perigosos.

Que eu não perca o sentimento de justiça, mesmo sabendo que a prejudicada pode ser eu.

Que eu não perca o meu forte abraço, mesmo sabendo que um dia meus braços estarão fracos.

Que eu não perca a alegria de viver, mesmo sabendo que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma.

Que eu não perca o amor por minha família, mesmo sabendo que ela muitas vezes me exigirá esforços incríveis para manter a sua harmonia.

Que eu não perca a vontade de amar que existe em meu coração, mesmo sabendo que muitas vezes este amor será submetido e até rejeitado.

Que eu não perca a vontade de ser grande, mesmo sabendo que o mundo faz com que eu pareça pequena.

Chico Xavier


June 30, 2006 | 9:21 AM Comments  0 comments

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El desarrollo de la paz. (O su descubrimiento?)
About this category: Peace & Conflict


"El mundo necessita paz". Hecho. La pregunta, entretanto, es: cómo desarrollarla? Dónde está la solución de esto problema?

En esta situación, la pregunta es muy importante. Tan importante cuanto la respuesta, tal vez. Aquellos que luchan por la paz y que la buscan tienen el mérito de la intención y del trabajo, pero una reflexión es importante: estarán buscando en el camino correcto? Estarán preocupados con las cosas correctas?

Observase que mucha gente busca la paz en las relaciones entre los paises, las religiones, las personas, y eso es necesario, pero hay algo más importante antes de esto: la busca por la paz dentro de sí mismos.

En cuanto buscarmos por la paz en los otros sin buscarla dentro de nosotros, no la encontraremos.


June 20, 2006 | 8:50 PM Comments  4 comments

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Ai, ai, ai...

1) Quem está no poder não está conduzindo as coisas da melhor maneira.
2) Quem não está no poder não está sabendo protestar.


June 7, 2006 | 2:32 PM Comments  2 comments

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Nem eu sei

Alguém aí pode me dar um rumo? Pode ser um que esteja sobrando, mas também posso dividir com alguém se só tiver um mesmo.

E quanto à força pra seguir em frente? Alguém pode me dar um pouquinho?

Talvez coragem. Essa também serve.

Um aparelho que faça com que a gente entenda a nossa cabeça também seria ótimo, mas, se eu só tiver direito a um aparelho, prefiro um que me faça entender meus sentimentos. Tá bom, não preciso entender. Controlá-los já seria suficiente.

Se não tiver nada disso, aceito um acelerador de tempo. Ou, quem sabe, alguma maturidade.





May 18, 2006 | 1:24 PM Comments  6 comments

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Grande verdade

"Tudo é vago e muito vário
meu destino não tem siso,
o que eu quero não tem preço
ter um preço é necessário,
e nada disso é preciso"


Leminski

March 20, 2006 | 9:32 AM Comments  0 comments

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Elevadores

Há algum tempo venho refletindo sobre os elevadores. Por mais que pareçam apenas ferramentas, máquinas criadas para facilitar nossa vida, na verdade são muito mais do que isso. Explico: sempre morei em apartamentos. O uso da máquina em questão sempre foi fundamental na minha vida de pessoa sedentária que não gosta de subir nem descer escadas - e acho que pra maior parte das pessoas, também é assim. Entretanto, existem, no geral, o elevador de serviço e o elevador social - e aí mora minha reflexão.

De acordo com as normas que não estão escritas em lugar nenhum, mas que todos devem cumprir para não receberem reclamações que ninguém expressa com palavras, os moradores, com exceção de estarem chegando da praia (o que não é o caso de Brasília), do clube ou de estarem com animais, devem utilizar o elevador social.

O elevador de serviço, também de acordo com as normas que não estão escritas em lugar nenhum mas que ai de você se não as cumprir, costuma ser dedicado para os chamados empregados, funcionários, empregadas, porteiros e etc.

É interessante perceber como as pessoas - moradores-, no seu dia-a-dia, não usam o elevador de serviço, por mais que entrem e saiam pela porta dos fundos em casa, por exemplo.

Para aguçar minha atenção a este tema 'elevadores', hoje aconteceu um fato interessantíssimo, que me fez parar pra pensar, e muito, em como está a nossa situação social - em todas as possibilidades desta palavra.

Estava eu - que sempre ando no elevador de serviço, independentemente de qualquer coisa -, quando, de repente, a máquina pára num andar do meio do caminho entre meu apartamento e a garagem. Entram dois homens, que pelo uniforme que usavam, trabalhavam em alguma empresa. Eu falei 'Boa tarde!' com um sorriso, e vi que eles ficaram muito constrangidos. Estavam falando, conversando bastante sobre alguma coisa e, quando a porta do elevador abriu e eles me viram, pararam imediatamente.

Estranhei, mas não pensei muito sobre o fato, preocupada que estava com a tarde de trabalho que vinha pela frente. No entanto, na hora que o elevador chegou no térreo, local de parada dos dois homens, falei 'Tchau!', e um deles saiu, de cabeça baixa, e o outro olhou rapidamente para mim e disse, em um tom de voz baixo: 'Tchau! E desculpe...'.

Eu fiquei completamente besta na hora. Mas besta mesmo, sem saber o que responder, como reagir, o que pensar. Desculpe??? Pelo quê?? Por ter cruzado comigo no elevador? Por ter me dado boa tarde? Por ter invadido meu 'espaço de moradora', mesmo estando fora do 'elevador dos moradores', de acordo com as regras que não escritas em lugar nenhum??

Fui até o carro pensativa, melancólica. O pedido de desculpas do homem me deixou boba, e, um tempo depois, fiquei com raiva de mim por não ter segurado a porta do elevador e dito: "Moço!! Você não tem que pedir desculpas por nada!! Imagina!! Isto é um absurdo! Você é um ser humano igualzinho a mim, tem o mesmo direito de ir e vir que eu tenho. E, ainda por cima, está trabalhando!! Você pode, inclusive e principalmente, andar no elevador da frente, sem ter de pedir desculpas pra ninguém! Ah! E não se preocupe com as regras que não estão escritas: elas são muito imbecis!"

Falando sério mesmo: tá na hora de repensar essas coisas. Sociedade... Pode uma coisa dessas?


February 20, 2006 | 5:56 PM Comments  0 comments

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