A pior coisa que ocorre quando você começa a morar sozinho é a carência. Chegar todo dia em casa e não ter ninguém para conversar, depois de um dia tedioso, é muito frustrante. Por isso, qualquer pretexto para convidar os amigos pra sua casa é uma ocasião e tanto. Depois de semanas intermináveis sem ter alguém para falar, em que as únicas vozes que se ouve são as dos desenhos animados que você assiste, é grande a expectativa de ter alguns amigos por algumas horas.
E é por causa dessa expectativa que ontem, às 3h da tarde, eu já começava a ficar meio tenso. Primeiro porque, dos cerca de 15 amigos a quem tinha convidade, uns 7 já me avisaram que não poderiam ir. Tudo bem, afinal, não caberiam os 15 no meu apartamento, mesmo. Isso ainda me deixava uma margem de segurança de 8 amigos.
3h10. Deitado no sofá, assistindo a (mais) um jogo (ruim) da Copa, a ansiedade começa a incomodar. "Será que o trânsito tá muito ruim?". Pela primeira vez, eu levanto e vou à janela, pra conferir se não tem nenhum carro conhecido estacionado. E não tem.
3h20. Outra ida à janela. A ansiedade se agrava, porque o telefone não toca. E o jogo na tv continua ruim.
3h30. A ansiedade começa a virar carência. "Poxa, não vem ninguém. Será só porque moro um pouco longe?"
3h35. A carência vira despeito. "Deixa estar. Nunca mais convido ninguém".
3h40. Chegam os primeiros dois amigos. O dia está salvo, a angústia desaparece e eu paro de inventar palavrões para xingar mentalmente todos aqueles que tiveram o "desplante" de não comparecer.
3h45. Chega mais um casal. Esse jogo vai ser uma maravilha!
20h. Depois do jogo e de quase 2 horas e meia de bate papo, eu me sinto o máximo por todo mundo ter aparecido - certo, não foi todo mundo, mas essa é a sensação.
Já estou pensando em chamar pro próximo jogo. Mas, confesso, dá um frio na barriga só de imaginar a angústia até o primeiro convidado chegar.