E resolveu o Futebol partir pelo mundo, após ter realizado grandes e maravilhosos trabalhos na grande Terra de Santa Cruz. Antes de sair, no entanto, reuniu três de seus melhores servos e deu a cada um uma porção de talentos, dando ordens aos servos para que cuidassem bem e continuassem a tarefa de ganhar títulos e homenagens com grandes times pelo mundo afora.
Muito tempo depois, ao retornar, o Futebol chamou os três servos e cobrou o que haviam produzido com os talentos que ele lhes havia deixado. Disse o primeiro servo, simplesmente chamado João:
- Senhor, abençoaste-me com grandes talentos e esforcei-me para fazer um grande time. No meio do caminho, o Poder não me permitiu continuar, mas ainda assim os talentos se multiplicaram, jogaram muito e chegaram ao título mundial.
- Muito bem – disse o Futebol – foste audaz e soubeste organizar e fazer com que os talentos se multiplicassem. Por causa de sua imaginação e bom-gosto, essa seleção que foi campeã será celebrada eternamente como o maior time de todos os tempos e jamais será esquecida!
Disse, então, o segundo servo, a quem era chamado Telê:
- Senhor, deste-me vários talentos e, seguindo o bom exemplo de João, montei uma bela equipe que jogou e encantou. No entanto, uma tempestade imprevista nos campos do Sarriá impediu que aqueles grandes talentos se tornassem campeões. Mais tarde, consegui juntar os talentos novamente em uma boa equipe, mas não foi suficiente, pois diversos guerreiros azuis atravessaram o campo e arrasaram com o trabalho.
Respondeu o Futebol:
- Telê, teu fracasso não será jogado sobre tuas costas! Trabalhaste bem, mas fatos imprevistos impediram-te de alcançar a gloriosa Copa do Mundo! Por tua ousadia, criatividade e elegância, teus times serão eternamente conhecidos como exemplo de bom jogo e, se não conseguiste ser campeão com o escrete nacional, os clubes por onde passar hão de alcançar imensas glórias!
Disse o terceiro servo:
- Senhor, abençoaste-me duas vezes. Com os poucos talentos que me deste, consegui montar uma boa equipe e ela foi campeã. O título por ela obtido rendeu muitos frutos, e diversos outros talentos surgiram. Apesar de ter muitos mais talentos à disposição, montei outro time à imagem e semelhança daquela que havia ganhado o título mundial na primeira vez, privilegiando um jogo seguro, apesar de chato, mas em que conseguíamos ganhar, quase sempre por placares pequenos e sem boas exibições. Algumas vezes, consegui até bons placares e raramente deixei que a equipe corresse riscos. Muitas vezes, o adversário chegava a nossa área, mas nossos zagueiros e goleiros conseguiram impedi-los de derrotar-nos. E assim, tenho progredido na presente Copa, até obter a vitória final.
E replicou o Futebol, encolerizado:
- Servo mau e acovardado! Sei que deixei-te poucos talentos de início, mas confiei na tua capacidade de planejamento e organização para conseguir o título. Mas, com tantos mais talentos que tenhas hoje, não conseguiu fazer uma equipe com tanto potencial jogar bonito e dar espetáculos que levem alegria à Torcida! Ao contrário, os talentos que obtiveste após o título, correste a enterrá-los sob a sombra de uma Parreira! Por causa de tua covardia, teus títulos jamais serão celebrados como os de João e nem teus times reconhecidos como os de Telê!
Dirigindo-se aos outros dois servos, ordenou:
- Tirem este da minha frente e levem-no a um lugar onde torcedor nenhum lhe dirija palavra amistosa. Que seu nome jamais seja lembrado como vencedor e que seus times sejam para sempre lembrados como exemplo de futebol chato e ruim!
Disse assim o Futebol, cujas predições a Torcida até hoje relembra festejando 70, 82, 86 e renegando 94.